Como aprimorar a cobertura jornalística da Lei Maria da Penha

LMP.pngA Lei Maria da Penha está completando uma década de existência neste mês, e muitos jornais, revistas, blogs, telejornais, programas de rádio etc. estão produzindo e veiculando matérias especiais sobre os 10 anos desta importante legislação. Nossa contribuição para as e os colegas é a respeito de temas que não podem deixar de ser abordados.

Mulheres negras

É preciso lembrar que a violência doméstica e familiar não atinge todas as mulheres da mesma forma. É comum que se esqueça que a questão racial impacta fortemente nos números. Mulheres negras precisam lidar não apenas com a discriminação machista quando procuram os serviços policiais e de saúde, mas também com o racismo. O fato é que as políticas públicas não estão chegando até as mulheres negras — em dez anos, o feminicídio de negras aumentou quase 55%, enquanto que o de brancas diminuiu quase 10%, segundo dados do Mapa da Violência 2015 — Homicídio de Mulheres. Sem um recorte étnico-racial, por parte da mídia e das políticas públicas, uma grande parte da população feminina brasileira continuará invisível e inalcançada pela lei.

Mulheres lésbicas e trans

Mulheres lésbicas e transexuais também estão contempladas pela lei, ou seja, mulheres em relacionamento homoafetivo/lésbico podem acionar a lei caso sejam vítimas de violência doméstica e familiar por parte da parceira, como decidiu a jurisprudência brasileira. O mesmo em caso de mulheres transexuais que estejam em relação doméstica e familiar com um homem cisgênero. O fato é que a heteronormatividade da cobertura jornalística faz com que tais casos passem despercebidos e inclusive não se preste essa informação a quem toma contato com a notícia.

Homens agressores

É preciso aprofundar a discussão sobre o tratamento dado pela lei ao homem agressor, e o que ocorre na prática com os programas ditos “de reflexão e de reeducação de gênero” voltados a quem comete o crime de violência doméstica e familiar. Isso envolve trabalhar a informação de forma a contemplar o autor da violência e verificar a eficácia desses programas. Focar também em quem comete a violência, porque a impressão que ainda é passada é de que só existe a vítima nessa equação. Quem são os homens que agridem?

Militantes feministas

O fim da violência e a promoção da educação de gênero envolve o reconhecimento e a valorização da militância feminista. É comum que reportagens sobre a lei tragam apenas os especialistas validados e legitimados por instituições de segurança pública ou pelo saber acadêmico — promotoras/es, delegadas/os, juízas/es, professoras/es. As militantes feministas, as pessoas que se dedicam voluntariamente à causa e integrantes como um todo dos movimentos sociais e de mulheres são pouco ouvidas/os enquanto fontes de saber e informação, embora tenham tanto ou mais conhecimento do que as fontes “especializadas”, uma vez que conhecem a fundo a dinâmica do atendimento à mulher vítima de violência. É preciso reconhecer os saberes não-tradicionais e não validados pelas instâncias de poder.

Serviços e aprofundamento

Não basta tratar de casos isolados de violência doméstica familiar, reduzindo o tema a uma questão de polícia. Aspectos propositivos, de educação e conscientização sobre o tema, também são previstos pela lei, e devem ser divulgados pela mídia. Explicar a lei, publicar informações sobre os serviços locais da rede de atendimento que estão disponíveis para as mulheres, fiscalizar o orçamento na área, se o dinheiro está de fato sendo aplicado — estas são tarefas igualmente importantes a serem cumpridas pelo/a jornalista que se propõe a cobrir a lei.

Responsabilidade midiática

E vamos lembrar: a lei, em seu artigo 8.º, inciso III, prevê a responsabilidade dos meios de comunicação para a erradicação e prevenção da violência doméstica e familiar. A imprensa está apenas cobrando ou também está fazendo sua parte? Trabalha pelo fim da discriminação e da violência ou se exime de responsabilidades e ainda ajuda a reiterar e reforçar essa violência? Vamos cobrar os meios de comunicação, está na lei.

Quais outras questões vocês acreditam que precisam ser mais bem trabalhadas pela mídia na cobertura da Lei Maria da Penha?

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Jornalista cria projeto para dar visibilidade às mulheres na arte e na economia criativa

Logo Trampos das Minas.jpgCuritiba deve conhecer nos próximos dias um projeto que pretende mudar a forma pela qual mulheres são representadas na arte e no mercado criativo. É o “Trampo das Minas”, que será lançado por aqui no dia 7 de agosto. Visibilidade, criação de oportunidades, representatividade, divulgação de referências, tudo isso faz parte da iniciativa, que além de trabalhar com mulheres que buscam adentrar e crescer profissionalmente nessas áreas, também busca contribuir com ONGs que trabalhem com o empoderamento e o acolhimento de mulheres. No dia do lançamento, 10% da renda obtida com a entrada (cujo valor é de R$ 5) será doada para a Associação de Jovens Mães Solo. Nós conversamos com a jornalista e produtora cultural Gabriela Titon, idealizadora do projeto, para saber mais sobre o Trampo das Minas.

Quem é:

Gabriela Titon nasceu em Pato Branco, interior do Paraná. Formou-se em Jornalismo pela Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (Unicentro) e estabeleceu Curitiba como uma nova casa em 2013. Cursou especialização em produção da arte e gestão da cultura pela PUC-PR e iniciou pós-graduação em marketing pela FAE Business School este ano. Já atuou com jornalismo impresso, assessoria de imprensa e comunicação corporativa, além de estar ingressando na produção cultural. Decidiu encarar a vida freela em abril (está disponível para jobs, inclusive) e coordena o Trampos das Minas desde junho. Aqui tem um pouquinho mais sobre alguns projetos que desenvolvidos por ela: www.gabrielatiton.wordpress.com

Gabriela

Coletivo: Como e quando surgiu a ideia do “Trampos das Minas”?

Desde 2012, quando cursava o último ano de Jornalismo, tenho aprofundado minha pesquisa sobre a atuação feminina em diferentes esferas. Um dos pontos de partida foi um ensaio fotográfico que produzi naquele ano, em Guarapuava (PR), com mulheres que desempenhavam profissões ainda consideradas majoritariamente masculinas.

Em 2014, encontrei dados absurdos ao fazer um trabalho acadêmico. Por exemplo: um levantamento do grupo Guerrilla Girls constatou que, em 2011, apenas 4% das obras das seções de arte moderna do Metropolitam Museum, em Nova York (EUA), eram assinadas por mulheres, no entanto, 76% dos nus eram femininos. Ou seja: que tipo de espaço nós temos ocupado ao longo de séculos? E isso não se manifesta só na arte.

A partir de questionamentos como esse, decidi criar o Trampos das Minas, para valorizar e visibilizar mulheres principalmente nas áreas artístico-cultural e da economia criativa, que são meus maiores interesses. A ideia já estava encubada há algum tempo, mas comecei a colocá-la em prática em junho deste ano.

O projeto é inspirado em iniciativas como o Minavu, uma plataforma baiana que promove, incentiva e conecta mulheres por meio da arte. Recentemente, elas realizaram o primeiro Festival Minavu, que contou com mais de 100 artistas e 300 mulheres envolvidas.

Coletivo: Quais os objetivos e quais pessoas e grupos vocês pretendem alcançar com esse projeto?

O Trampos das Minas é norteado pela necessidade de termos mais representatividade feminina, respeito e diversidade em nossas vivências, por isso a importância de articular novas iniciativas, impactar pessoas, criar conexões e inspirar transformações.

A proposta é contribuir para a promoção da autonomia, do empoderamento e do protagonismo feminino, fortalecendo nosso espaço no cenário artístico-cultural. Para isso, também é preciso incentivar o empreendedorismo e a criatividade; facilitar o diálogo e a troca de conhecimento; além de informar sobre a desigualdade de gênero no mercado de trabalho.

A iniciativa pretende incluir o maior número de pessoas possível, buscando dialogar com grupos distintos. Existe uma preocupação em abranger mulheres que são mães, por exemplo, já que ainda devemos avançar muito para a maternidade e o campo profissional caminharem em sintonia. Também temos a preocupação de incluir mulheres negras, mulheres trans… Enfim, o objetivo é dar espaço para todas.A princípio, as ações serão desenvolvidas em Curitiba, mas a intenção é expandir o projeto para outras cidades futuramente.

Coletivo: Um dos eixos do projeto é a criação de conteúdo e comunicação. Como ele será desenvolvido? E, na tua opinião, qual a importância da comunicação para a efetivação dos direitos das mulheres?

O primeiro passo foi a criação de perfis no Facebook e no Instagram, que já começaram a disseminar informações tanto próprias quanto de outras fontes. Para avançar nesse aspecto, planejamos criar um site (inicialmente, será um blog) que traga conteúdos pertinentes envolvendo a atuação profissional feminina em diferentes áreas. Também queremos explorar outras linguagens, produzindo mini-documentários, exposições fotográficas e campanhas online, sempre dentro desse tema.

A comunicação exerce um papel de extrema responsabilidade, porque tem o poder de transmitir referências e dar visibilidade a determinadas pautas. Acho incrível observar o surgimento de propostas como o Think Olga, a revista AzMina e o Coletivo Nísia Floresta, que contrapõem discursos construídos e sustentados por mais tempo do que deveriam. Precisamos ter pluralidade e nos sentirmos representadas pelo jornalismo, pela publicidade, pela indústria do entretenimento… Caso contrário, com quais modelos vamos nos identificar?

Não basta apenas ocupar espaços – o que já é uma luta diária por si só –, mas mostrar que eles estão sendo ocupados. Além disso, questionar estruturas que colocam o Brasil na 51.ª posição entre 58 países desenvolvidos e emergentes quando o assunto é tratamento igualitário entre os gêneros, segundo uma pesquisa do World Economic Forum.

Angelica - Acid
A tatuadora e artista visual Angelica Spinardi, que terá uma exposição promovida pelo Trampo das Minas

Coletivo: Como é ser jornalista e ao mesmo tempo militar pelos direitos das mulheres e ser feminista? Quais dificuldades você já teve de enfrentar?

Sempre tentei priorizar mulheres em projetos que desenvolvia, mas comecei a compreender melhor a importância do feminismo e me identificar enquanto feminista quando fotografei a 1.ª Marcha das Vadias de Guarapuava (PR), em 2012. Esse processo de percepção e desconstrução se intensificou no ano passado, quando fiz seis meses de psicanálise.

Passei a enxergar práticas como o gaslighting e o mansplaining em situações profissionais, acadêmicas ou pessoais que eu mesma naturalizava. Somos taxadas de “histéricas”, “exageradas” ou “sensíveis demais”, além de precisarmos afirmar nossa capacidade constantemente – isso ocorre de forma explícita ou velada.  Mas esses comportamentos não se restringem ao jornalismo ou ao mercado da comunicação, né?

Certa vez, entrevistei uma gerente financeira que ocupa um dos poucos cargos femininos de liderança na indústria agropecuária paranaense, e ela disse que a mulher “precisa se revestir mais forte” para atingir objetivos, porque seu conhecimento é colocado em xeque a todo o momento. Acredito que todas nós enfrentamos esse tipo de obstáculo e outros bem mais graves. O feminismo é um aliado para nos empoderarmos e deixarmos de lado esse pensamento ridículo de competição entre mulheres, porque juntas somos mais fortes.

Serviço: 

Dia 7 de agosto, das 15h às 19h, no Atelier Soma. Rua Brigadeiro Franco, 2.119 – Centro, Curitiba – PR

Lançamento do projeto “Trampo das Minas” e abertura da exposição Libert(as), que reunirá trabalhos em nanquim, aquarela, acrílica e carvão. De autoria da tatuadora e artista visual Angelica Spinardi (Acid), as obras ficarão em cartaz até 21 de agosto no Atelier Soma. O evento também contará com bate-papo, discotecagem, performance, feirinha com marcas independentes, chopp artesanal e comidas vegetarianas. A entrada custará R$ 5, considerando que 10% da renda obtida será destinada para a Associação de Jovens Mães Solos, instituição que promove atividades como aulas preparatórias para o Enem e encontros para troca de experiências.

 

Não é cantada, é assédio, é violência – e pode matar

Tatyana

Não é cantada, é assédio, é violência – e pode matar

Um pedido aos/às colegas jornalistas: quando forem tratar da violência verbal e sexual que as mulheres sofrem nas ruas e no espaço público como um todo, deem a ela o nome que ela verdadeiramente tem: assédio. Não é cantada, não é elogio, não é flerte. É violência. Alguns atos, inclusive, nem se encaixam na categoria assédio e importunação ofensiva ao pudor e já podem ser considerados estupro.

Mulheres têm vários direitos, como o direito à segurança, ao ir e vir, à sua intimidade e privacidade, à fruição do espaço público, ao trabalho, à educação e ao lazer, violados ou impedidos por conta disso que se chama de “cantada”. Vamos levar isso a sério?

E vamos também parar de fazer matéria relativizando o assédio, com fala-povo, enquete, debates e artigos com pessoas contra e a favor da “cantada”. Isso não existe. O outro lado dos direitos humanos das mulheres se chama violência. Você quer dar espaço para pessoas defenderem violência?

Você faria uma matéria ouvindo pessoas contra e a favor do estupro? Esperamos que não, então, não faça isso no caso do assédio em espaços públicos. Somente existe aquilo que tem nome. Assédio é assédio. Vamos reiterar até que seja normalizado. A mudança também começa na linguagem. Você está contra ou a favor dos direitos humanos das mulheres?

Por que esse debate é importante?
Porque nesta semana está sendo noticiado que Michelle Ferreira Ventura (e não a “espancada”, como afirmou o G1 na sua manchete –http://glo.bo/2a0BckP) morreu após reagir a uma cantada. Isso é minimizar o que houve. Michelle morreu porque reagiu a uma violência que angustia e dificulta a vida das mulheres todos os dias. Michelle morreu lutando contra o assédio, após quatro meses em coma. Nós vamos minimizar o que houve com ela ou vamos trabalhar, enquanto jornalistas, para que isso acabe?

Foto: obra da artista de rua Tatyana Fazlalizadeh, parte do projeto “Stop Telling Women to Smile” (Pare de mandar as mulheres sorrirem), que quer conscientizar as pessoas a respeito das consequências do assédio na vida das mulheres. Aqui, lê-se: “As mulheres não estão nas ruas para o seu entretenimento”.
Mais sobre o projeto aqui: http://www.tlynnfaz.com/Stop-Telling-Women-to-Smile

Matéria do Fantástico sobre estupro em hotel culpabiliza a vítima e vitimiza o agressor

julgamento

Uma matéria veiculada pelo Fantástico, programa da Rede Globo de Televisão, neste domingo, 24, sobre um estupro ocorrido no interior de um hotel Ibis, na cidade paulista de Paulínia, é o mais puro exemplo de como não abordar a violência sexual na TV. Veja a matéria: http://glo.bo/2atTSP4

Ao relatar o estupro, confessado pelo homem, a Globo primeiramente deu um amplo espaço para o agressor, em vídeo provavelmente gravado de forma amadora. Na imagem, o homem diz que cometeu o estupro por seu “instinto de homem”, que já estava arrependido antes de cometer o crime e que em nenhum momento teria planejado o ato – embora tenha ido ao quarto da mulher mais de uma vez para se certificar de que ela estava sozinha e apesar de ter arranjado uma chave extra para entrar no quarto da vítima, já que ele era funcionário do hotel e tinha acesso privilegiado aos quartos.

A mulher, seu namorado (que estava em outro quarto, pois o casal havia tido um desentendimento), seus familiares e seu advogado não quiseram gravar entrevista, mas nada impediria a Globo de ouvir um especialista nas questões de gênero para fazer um contraponto à fala do estuprador confesso. Em nenhum momento houve, ao que nos parece, a intenção de mostrar também o lado de uma vítima de estupro – a mulher acordou nua com o homem, nu, em cima dela.

No final da matéria, uma situação ainda mais estarrecedora: fez-se questão de veicular que a mulher não trancou a porta do quarto com uma trava de segurança – a porta estava trancada, mas sem a trava de segurança, quem possui uma espécie de chave magnética mestra, como funcionários, pode abri-la. Um especialista chega a aconselhar o público a sempre usar essa trava e dando a entender que se a mulher a tivesse utilizado, isso não teria acontecido.

Nós entendemos que o cenário em que vivem as mulheres não é o ideal, e que qualquer precaução que puder nos ajudar a aumentar nossa segurança será tomada. Mas é preciso sempre afirmar com convicção que a culpa do estupro é do estuprador, e não da vítima que foi “descuidada”, uma imagem que a matéria ajudou a reproduzir, com ou sem intenções, a não fazer essa ressalva. O fato é que estupradores, frutos de uma sociedade que desumaniza as mulheres e as trata como objetos, sempre encontrarão um meio de estuprar.

Mulher

Quantas “precauções” uma mulher precisará tomar para se sentir segura? Quem poderia imaginar que seria estuprada por um funcionário de hotel com a porta fechada de forma automática e com várias câmeras de circuito fechado nos corredores que visam justamente a inibir esse tipo de comportamento e que já são, por si, uma medida de segurança? A tranca não poderia muito bem ser arrebentada pelo homem, de qualquer forma?

Por que a matéria não enfocou este aspecto, e preferiu dar uma “dica” preguiçosa e de pouco valor para as mulheres, num enfoque que indiretamente culpabiliza a vítima?

Além de tudo, mais uma vez vemos a questão do estupro ser tratada basicamente como um fato isolado e um caso de polícia (o que certamente também é), mas sem qualquer foco na educação e na prevenção por meio da conscientização, sem nenhuma discussão profunda a respeito das origens da cultura do estupro e sem a presença de especialistas que estudam e trabalham com o assunto e que poderiam enriquecer a reportagem.

Seria essencial que jornalistas admitissem sua ignorância sobre o assunto e buscassem se aprofundar no tema, porque da forma como foi veiculada, esta matéria está longe de prestar um serviço às vítimas – pelo contrário, é um grande tapa na cara delas.

Mulheres negras na mídia: onde estão?

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Brasília – Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver em Brasília, reúne mulheres de todos os estados e regiões do Brasil (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Neste 25 de julho, comemora-se o Dia Internacional da Mulher Negra e o Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha. Esta data, fruto de intensa luta dessas mulheres por visibilidade, respeito e reconhecimento, nos traz novamente o questionamento: onde está a mulher negra na mídia?

A mulher negra enquanto sujeito de direitos é invisibilizada nos meios de comunicação. Geralmente é retratada ou como objeto sexual, ou como vítima ou protagonista de delitos e de crimes. Ainda assim, de forma superficial. Um exemplo óbvio diz respeito aos números da violência contra as mulheres no Brasil: embora as mulheres negras sejam as principais atingidas, não se fala sobre isso.

Toma-se a categoria mulher como universal, sem menção ao fato de que o racismo aprofunda e reforça a violência de gênero, numa interseção perversa entre machismo e racismo, além da questão de classe, uma vez que a pobreza atinge mais as mulheres negras. Dados do Mapa da Violência 2015 mostram que o homicídio de mulheres brancas diminuiu quase 10% em 10 anos, enquanto que o de mulheres negras aumentou quase 55%. Mas pouco ou nada se fala sobre, como se o racismo nada tivesse a ver com isso.

As mulheres negras raramente são vistas como fontes fidedignas para matérias, resultando num apagamento dessas como produtoras de informação e de opinião. Se as mulheres brancas são pouco ouvidas, as negras enfrentam cenário muito pior. Quantas colunistas negras conhecemos? Quantas negras publicam artigos e são fontes constantes de matérias? E quantas negras estão ocupando cargos em jornais, desde repórteres até editoras? Quantas negras são âncoras de telejornal?

Pesquisa publicada em 2012 pela Federação Nacional dos Jornalistas mostrou que 64% dos jornalistas brasileiros são mulheres, e que 23% são negros, mas não há informações sobre quantos são mulheres negras. Porém, não é difícil imaginar que as jornalistas são majoritariamente brancas, principalmente quando assistimos à TV. Até recentemente, e em muitas situações isso ainda ocorre, quando mulheres negras são contratadas, exige-se que escondam características de sua negritude, como alisar o cabelo e até clarear a pele com maquiagem.

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Nos editoriais de moda, nas ilustrações e nas fotografias, as negras sequer aparecem. Em revistas com ensaios de noivas, por exemplo, mal se veem as negras, o que é um reflexo e também um reforço da solidão da mulher negra, preterida por homens negros e brancos, vista apenas para relacionamentos casuais, mas não para relacionamentos longos e para o casamento. Em editoriais de moda e maquiagem, elas quase nunca estão lá. É comum até escurecer a pele de mulheres brancas para que imitem negras (o chamado blackface).

Na mídia como um todo, a situação não é diferente. As mulheres negras não se veem na propaganda, nas séries de TV, no cinema, nas novelas. Quando muito, são retratadas como a mulher hipersexualizada, subalterna ou exótica – basta ver a quantidade de mulheres negras que interpretaram e ainda interpretam empregadas domésticas, “mulatas sensuais”, “barraqueiras”, criminosas e moradoras de favelas – o que não quer dizer que haja demérito em ser empregada doméstica, passista de escola de samba ou moradora de favela, apenas que esse não deve ser o único lugar da mulher negra na mídia e na sociedade. É preciso diversificar os papéis e criar novos imaginários e destinos para as negras brasileiras.

Neste dia, e em todos os outros, é preciso fazer uma reflexão a respeito de como estamos cobrindo a questão do racismo na mídia, em especial do racismo vivido pelas mulheres negras. Ao retratarmos as mulheres, precisamos entender que suas vivências são muito distintas, e parar de reproduzir o padrão universal de mulher, sempre branca. Precisamos retratar as mulheres negras em todas as mídias e entrevistar pessoas negras, tratando-as como produtoras de informação e opinião.

O jornalismo brasileiro, e também o jornalismo feminista, jamais será um jornalismo de qualidade, plural, democrático e produtor de mudanças e de igualdade enquanto ignorar mais da metade da população feminina brasileira. E não estaremos fazendo nenhum favor a essas mulheres – esta é uma questão de justiça.

Machismo e superexposição da vida privada das mulheres

Circula em dois espaços midiáticos paranaenses nessa quinta-feira (16) uma infeliz notícia a respeito da vereadora curitibana Carla Pimentel (PSC) e seu perfil na rede social Tinder, um dos principais aplicativos de encontros no Brasil.

Veiculada pelo Blog do Tupã, no site Bem Paraná, e pela Gazeta do Povo, a “notícia” obteve destaque nos dois veículos. A matéria é completamente desprovida de relevância jornalística, além dos títulos serem permeados de sensacionalismo – “Vereadora de Curitiba procura namorado no Tinder. Será que dá ‘match’?” e “Carla Pimentel procura a fórmula do amor“. Por quê os leitores precisariam desta informação, considerando que as decisões da vida privada da vereadora não dizem respeito ao público?

Esta é mais uma amostra da necessidade dos veículos de comunicação de ignorarem os feitos profissionais e políticos das mulheres e focar na vida pessoal – especialmente romântica e sexual. É mais um exemplo de que, sempre que uma mulher alcança um cargo político, o público precisa ser lembrado de que ela é uma mulher e precisa estar com os relacionamentos “em dia” antes de qualquer coisa.

Mesmo irrelevante e desprovido de valor-notícia, o texto recebeu até mesmo chamada na homepage da Gazeta do Povo On-line, no mesmo dia em que inaugura em Curitiba a Casa da Mulher Brasileira, uma informação infinitamente mais relevante para as mulheres curitibanas que sofrem algum tipo de abuso ou violência. A Casa é um espaço que vai agregar diversos serviços em um único endereço: a Delegacia da Mulher, espaço de acolhimento, juizado especializado em violência doméstica, além de integrar alojamento para as mulheres e familiares que precisarem de atendimento.

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O jornal tratou deste assunto no dia anterior, mas na data de inauguração segue sem destaque, enquanto o material sobre a vida pessoal da vereadora Carla Pimentel permanece na homepage, reforçando o machismo institucionalizado que não apenas julga a mulher por seu comportamento em sua vida pessoal, como também a superexpõe de forma completamente desnecessária e reforça um estereótipo de que, ainda que obtenha sucesso profissional, as mulheres estão sempre “à procura de um namorado”, como o texto repete à exaustão.

Não é a primeira vez que mulheres na política são tratadas dessa forma nestes e em vários outros jornais. Uma clara forma desesperada de caçar audiência e cliques numa época em que se busca publicidade a todo custo, já que os jornais estão perdendo público.

Não compartilharemos os links e convidamos nossas leitoras e leitores a também boicotarem essa notícia nos dois veículos de comunicação. Toda vez que clicamos em matérias assim, estamos incentivando o jornalismo sensacionalista. É um ciclo vicioso, onde quanto mais audiência oferecemos a matérias assim, mais incentivamos que elas existam.

O silêncio midiático sobre o estupro coletivo no Rio de Janeiro

Uma jovem de 17 anos é estuprada por cerca de 30 homens. Não bastasse a barbárie do ato em si, os criminosos ainda divulgam vídeos em seus perfis nas redes sociais expondo a mulher que foi violentada, exibem seu corpo, riem, divertem-se com a situação e justificam o crime com base no comportamento pouco submisso da vítima.

Um ato de extrema barbárie, fundamentado com uma motivação que tenta justificar o injustificável, cometida em um país onde uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Um país cujo ministro da Educação recebe propostas de governo vindas de um estuprador. Um país que se fecha para a participação política feminina, que tem o número total de zero mulheres comandando ministérios. Um país que permite que a bancada religiosa e grupos de fundamentalistas protagonizem a legislação sobre o corpo da mulher em questões como a do aborto.

empoderamentofeminino e fim da violencia contra a mulher

Que ferramentas nos sobram para lutar contra o machismo, a misoginia e a cultura do estupro que parece cada vez mais presente? Uma mulher é estuprada por 30 homens e nossos principais jornais, emissoras de rádio e TV silenciam sobre um crime tão cruel. Apenas depois da divulgação massiva do caso nas redes sociais, alguns veículos de comunicação se deram ao trabalho de relatar o ocorrido. E, ainda assim, onde está a problematização, onde está o aprofundamento sobre o contexto brasileiro que permite que crimes como este continuem acontecendo – com uma frequência muito maior do que imaginamos?

A violência sexual extrema vivida pela jovem carioca não é um caso isolado. Ela apenas ganhou projeção porque um dos criminosos envolvidos divulgou um vídeo expondo sua própria crueldade. Todos os dias, mulheres vivem agressões, muitas vezes cometidas por mais do que um homem. Nossa mídia, que deveria ser nossa voz, que deveria questionar, despertar discussões e incentivar a reflexão sobre o machismo institucionalizado e o uso de violência sexual de maneira punitiva ou educativa, apenas relata o crime.

Agora, além de lidar com o próprio trauma e com a exposição sofrida, essa jovem ainda precisa ler notícias que transformam sua vida em um verdadeiro reality show – que está mais para um verdadeiro show de horrores.

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As notícias veiculadas em geral fazem um acompanhamento superficial. Nesta matéria, publicada no dia 25/05, a redação do G1 Rio de Janeiro fala de uma “suspeita de estupro” e da identificação de dois suspeitos e relata os fatos de maneira direta, sem trazer especialistas em gênero ou apresentar nenhuma problematização. Informa apenas que “O MP também aproveitou para alertar sobre as consequências de se compartilhar vídeos ou fotos íntimas de pessoas. A conduta é ainda mais grave em se tratando de um evento criminoso. A divulgação dessas imagens configura crime previsto no Código Penal Brasileiro”.

Desde então, outras matérias trouxeram atualizações sobre a identificação da mulher violentada e de sua família, do acompanhamento médico que a jovem vem recebendo, do coquetel que a mesma recebeu e da investigação sobre os suspeitos de terem cometido o crime. Nenhuma das notícias aproveita o momento para discutir as absurdas mudanças que vêm sendo propostas na legislação e que prejudicam diretamente vítimas como esta jovem.

A completa ausência de discussão e o silêncio dos meios de comunicação de massa são absurdos e indignantes. Precisamos falar sobre a cultura do estupro e sobre como ela produz atos de barbárie como esse. Precisamos cobrar nossas esferas midiáticas sobre um posicionamento, precisamos cobrar nossa voz.

Juntas, precisamos manifestar nossa indignação e cobrar dos responsáveis ações que tragam mais conscientização, mais discussão e mais reflexão. Esta é a única forma possível de lutar contra a cultura do estupro.

mulher

Em Curitiba, grupos de mulheres organizam uma vigília em solidariedade à jovem na noite dessa quinta-feira.

Mobilize-se também nas redes sociais contra a cultura do estupro, adicionando o Twibbon criado contra a Cultura do Estupro.

Lembre-se, ficar em silêncio também é uma forma de ser conivente. Denuncie violência contra a mulher e violência doméstica por um dos diversos canais criados com essa finalidade: na Polícia Federal, no Safernet ou no Humaniza Redes.

Gazeta do Povo, cada dia mais preconceituosa e parada no tempo

No último dia 21, o site Sempre Família, ligado ao jornal paranaense Gazeta do Povo, publicou o artigo “Bela, recatada e do lar… Será esse o problema?”, em que busca atacar a campanha comandada por mulheres, feministas ou não, que faz uma crítica bem-humorada e ao mesmo tempo politizada contra tal frase (“bela recatada e do lar”), manchete de uma matéria da revista Veja. Explica-se: os adjetivos eram utilizados para descrever Marcela Temer, esposa do vice-presidente Michel Temer, vista como um exemplo de mulher a ser seguida.

Revista extremamente conservadora, preconceituosa e contrária aos avanços dos direitos da mulher, Veja, que é a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, buscou valorizar a figura do vice-presidente por meio de sua mulher, numa tentativa de mostrar que Temer é um homem de família tradicional, com uma mulher que não se envolve em política, discreta, do lar, dentro dos padrões de beleza e moral considerados ideais e guardiã da honra de Temer. E ao fazer isso, usou de uma velha divisão entre mulheres: as recatadas, de boa moral, e as que não se enquadram nessa moldura.

O texto em questão, escrito por quatro mulheres, então resolveu atacar a campanha, com o argumento falacioso de que as mulheres, que estavam criticando essa divisão moralista e preconceituosa, estariam desrespeitando Marcela Temer de forma “agressiva”. Embora as mulheres que aderiram à campanha – feministas ou não, de “esquerda” e de “direita” – tenham feito inúmeras problematizações e deixado claro que o ataque não era a Marcela, mas sim a esse discurso limitador, preconceituoso e moralista, isso foi propositalmente ignorado pelas articulistas.

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Ao longo do texto, lê-se que homens e mulheres nunca vão ser iguais, dando a entender que feministas são libertinas e promíscuas e que os sexos teriam papeis e naturezas diferentes, um argumento que, além de desrespeitoso e odioso ao desrespeitar mulheres feministas, é embolorado e ultrapassado. Ignora que a ciência não é neutra – basta lembrar de que há pouco tempo a ciência, formada em sua maioria por homens brancos, afirmou que brancos e negros teriam cérebros, aptidões e naturezas diferentes, apenas para serem desacreditados e desmascarados em suas falácias racistas. E isso ocorreu, não por acaso, quando negros e negras passaram a frequentar universidades e a exercerem o direito à própria voz. Mas ainda hoje há quem acredite nisso, assim como há quem acredite que homens e mulheres são tão distintos entre si que seria impossível que tivessem os mesmos direitos, como poder estudar, trabalhar, fazer política e dividir as tarefas domésticas.

Ler o texto é uma atividade dolorosa. As autoras ignoram estudos neurológicos que mostram que o cérebro é plástico e sofre grande influência do ambiente – no caso, da criação, principalmente na primeira infância, em que estímulos dados à criança farão toda a diferença e influenciarão suas escolhas pessoais, profissionais e de vida, independentemente de seu sexo biológico. Para que se certifiquem desses estudos, sugerimos que leitores e leitoras conheçam o trabalho da rede mundial de neurologistas NeuroGenderings, infelizmente não tão conhecida e com tanto espaço na mídia quanto argumentos preconceituosos, ávidos por dividir as pessoas em caixas de acordo com seus genitais.

Uma questão que fica muito visível, tanto na matéria de Veja quanto no panfleto do site, é a certeza de que há mulheres melhores e mais virtuosas do que outras. Um sentimento de superioridade, de que há as mulheres dignas de respeito e aquelas que não são. O uso de termos como recato mostra que ainda há mulheres pouco inclinadas a respeitar e a compreender as escolhas de outras, seja porque essas não seguem sua religião, sua ideologia política ou suas ideias em geral sobre o que uma mulher pode e deve fazer.

O texto afirma que as feministas não respeitam Marcela, mas são as autoras a desrespeitar quem não coaduna com seus ideais. Aliás, afirmam que feministas, ao interpretarem o mundo, usariam óculos que distorceriam a realidade, mas, curiosamente, não comentam que seus óculos também distorcem o mundo – uma visão religiosa preconceituosa, egoísta, limitadora, que discrimina e desconsidera a ponto de chamar mulheres de quem discordam de promíscuas e libertinas.

Outra falácia é de que as discriminações e violências históricas contra as mulheres seriam apenas “abusos”, quando, na verdade, as mulheres foram vítimas de variadas violações ao longo da história, em qualquer época. Afirma que, durante a Idade Média, as mulheres podiam realizar inúmeras atividades, embora isso fosse possível apenas para uma minoria, exceções, e certamente não para mulheres não-brancas e de classes baixas. Obviamente que não se deve menosprezar o esforço das mulheres para romper com as limitações e violações impostas pelos homens em qualquer época da História, mas colocar isso como se fosse a regra é agir de má-fé. Mulheres exerciam, sim, atividades públicas, mas além de serem elas exceções, não tinham os mesmos direitos dos homens.

Sabemos, inclusive, que a Idade Média não foi um período de trevas como se coloca, e que tal época foi muito mais complexa e rica do que se coloca – afinal, evitamos ver o mundo de forma maniqueísta, dividido entre bem e mal, entre bons e maus de forma absoluta, mas é preciso também sermos cuidadosas com releituras históricas e obras de historiadores e historiadoras (que como qualquer um de nós, têm suas ideologias) que relativizam os abusos do gênero masculino, de instituições como a Igreja ou de ideologias como o cristianismo. Para tanto, basta analisar o que ocorreu durante a Inquisição com mulheres vistas como não recatadas, domésticas e desviantes do padrão, ou, então, indo mais longe, para não limitarmos nossa crítica a uma época dominada pela ideologia cristã, sobre a forma como viviam as mulheres na Grécia antiga, circunscritas ao lar e impossibilitadas de fazer política.

Por fim, temos pouca esperança de que o jornal avance em relação ao tema, que seja mais democrático ouvindo todas as vozes – o que é um pressuposto do Jornalismo não cumprido pelo veículo – e que seja honesto em relação à sua ideologia frente a leitores e leitoras. Até pensamos que não valeria a pena responder um veículo que não se importa com a pluralidade e só “prega para convertidos”, e que por isso cada dia perde mais importância. Mas esperamos que quem nos lê busque consumir outras fontes de conhecimento e de opinião, que não fique restrito às mesmas e emboloradas ideias, que desconfie de categorizações e supostas afirmações que parecem escritas em pedra (como a ciência dita neutra) e que, antes de tudo, conheça e reconheça outros modos de pensar, de viver, de ser mulher e de ser homem. É para essas pessoas que escrevemos.

Em tempo: defendemos que as mulheres possam ser o que elas quiserem, inclusive apenas do lar. Para quem não sabe, existem movimentos dentro do feminismo que focam na maternidade e no trabalho doméstico, por exemplo. Apenas defendemos que essa escolha seja de fato livre, informada e feita sem coerções, sutis ou explícitas. Não acreditamos em conceitos como natureza feminina, até porque, se fosse assim, como se acredita que a natureza da mulher é ser irracional, então não deveríamos nem estar expondo nossas opiniões na internet, porque simplesmente não seríamos vistas como seres capazes de ter e emitir opinião (inclusive as preconceituosas).

Ainda: Dilma, um senhora de quase 70 anos, vem sendo constantemente atacada enquanto mulher, com termos chulos, grosseiros e misóginos. Será que o jornal ou o site se manifestarão em defesa de Dilma enquanto mulher, independentemente de ideologia?

Outra coisa: Marisa Letícia, a esposa de Lula, foi primeira-dama por 8 anos. Uma mulher discreta, que foi empregada doméstica e depois passou a se dedicar exclusivamente à família. Usou sempre roupas tidas como recatadas, abaixo do joelho. Era vista como uma mulher de pouca inteligência, que não tinha nada a dizer, sem o brilho de uma Ruth Cardoso, a esposa do presidente Fernando Henrique Cardoso. Dois pesos e duas medidas?

Foto: Dilma na posse do segundo mandato, ao lado da filha Paula, de Marcela Temer e de Michel Temer.

Machistas e abusadores: não passarão!

Grazi

Na noite da última terça-feira, dia 5 de abril, recebemos a notícia do abuso sexual sofrido por Graziela Oliveira, estudante de Comunicação da UFPR, militante do RUA e filiada ao PSOL Curitiba, dentro de um ônibus.

Os abusos em ônibus públicos na cidade já não são novidades – infelizmente – e nem o machismo que a cada dia aterroriza a vida de mais uma mulher, seja no ônibus, na rua ou mesmo em casa. Desde 2014, a campanha “Busão sem abuso”, lançada pela Prefeitura de Curitiba, recebeu 107 ocorrências de assédio sexual e atos obscenos ou libidinosos no interior do transporte coletivo, que resultaram em 15 prisões em flagrante.

No entanto, podemos admitir que esses números provavelmente sejam maiores, uma vez que o caso de Grazi trouxe à tona uma série de denúncias nas redes sociais sobre a má vontade dentro das delegacias para tratar de casos similares. Seja com a desculpa de que seria impossível apreender os responsáveis ou que o fato estaria ligado com algum comportamento ou vestimenta da vítima. Será que precisamos relembrar que não é a saia quem abusa?

Não bastasse as denúncias feitas na “Busão sem Abuso”, vários coletivos feministas sistematicamente denunciam a naturalização desse tipo de violência sexual através de falas e piadas que colocam a vítima em situação vunerável e legitimam a atitude do abusador – como no vídeo em que o grupo Tesão Piá faz graça do abuso sexual dentro de ônibus.

Também denunciamos a frequente culpabilização das vítimas de abuso e a barbárie instalada nas redes sociais contra mulheres que sofrem situações similares, como as piadas sem graça, as ameaças e os ataques direcionados, tais como aqueles recebidos pela Graziela durante o dia seguinte (e que serão encaminhados para a delegacia de crimes virtuais). Esses ataques são o retrato de uma cultura machista que transforma o corpo da mulher em propriedade, principalmente, do homem, e que periodicamente silencia mulheres já vulneráveis com constrangimentos desnecessários e impiedosos.

Repudiamos também o jornalismo e jornalistas que fazem desse fato um espetáculo sensacionalista, que não apuram os fatos e que tratam essa situação como algo banal. A depreciação e a deslegitimação da denúncia são táticas em uma estratégia, construída socialmente, para anular a voz das mulheres e reservar a elas o silêncio. Nos parece estranho que ganhe mais atenção da comunicação social as tentativas de desacreditar, desprovar e mesmo ridicularizar um relato de violência. Mulheres seguem sendo abusadas cotidianamente em ônibus, essa é a notícia mais importante.

Acreditamos na construção de uma sociedade feminista, reafirmamos o compromisso na luta pelos direitos das mulheres, pelo direito ao próprio corpo e pelo direito de se manifestar livremente. Apoiamos a construção de marchas e mandatos feministas, porque não existirá outro modelo de sociedade enquanto nossos direitos e nossas falas não forem tratados da mesma maneira. Queremos que a Imprensa promova cada vez mais o debate público sobre gênero e que o jornalismo seja também mecanismo de transformação da sociedade.

Deixamos aqui nossa empatia e nossa solidariedade à Grazi Oliveira. Te queremos livre e lutadora como sempre. Somos mulheres, somos fortes e estamos juntas na luta contra o machismo e a opressão de gênero.

Assinam essa nota:

Coletivo de Jornalistas Feministas Nísia Floresta
Revista Vírus
Núcleo de Mulheres do PSOL Curitiba

Espetáculo carioca Ex.troll.gênio será apresentado no Festival de Teatro de Curitiba

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Ex.troll.gênio, terceira peça-game da autora e diretora Vida Oliveira, criadora de #perfil e in.com.patíveis, chega à sua segunda temporada com apresentações no Festival de Teatro de Curitiba, no Paraná e no Parque das Ruínas e Teatro Ziembinsky, no Rio de Janeiro. Este é um projeto que respira o novo e vai além do teatro: é transmidiático, possui um blog, canal de vídeos, página ativa no Facebook e foi financiado colaborativamente pela internet.

A peça nasceu a partir de inquietações relacionadas à feminilidade dentro dos ambientes online, principalmente no acesso e no uso das redes sociais. Com o intuito de valorizar o empoderamento feminino, semanalmente, o blog do projeto conta a história de mulheres inspiradoras e com iniciativas admiráveis. O texto da peça também é escrito de forma colaborativa, a partir das contribuições de participantes online, amigos e dos próprios membros da equipe, com a dramaturgia assinada por Vida Oliveira.

Brisa Rodrigues, atriz da peça, interpreta três personagens com histórias que se entrecruzam, tentando retratar, de diferentes formas, realidades possíveis no que tange a relação da mulher com o meio social dentro de ambientes online. No palco, Brisa será Beatriz, Lila e Daniela, cada uma com características próprias. Beatriz, por exemplo, é uma stalker viciada em internet e aprenderá muito com esse vício, a partir da votação do público, que acontecerá várias vezes, participando de importantes decisões da personagem. Lila, por sua vez, tem um canal no YouTube, onde apresenta de forma humorada questões relacionadas ao universo feminino. Já Daniela precisa da ajuda do público para lidar com o machismo. Com todas as possibilidades de votação, 31 espetáculos possíveis foram ensaiados pela atriz. Cada dia de apresentação revela-se uma interpretação diferente, a depender da escolha do público.

E como rola a votação? A plateia consegue, através de um aparelho wi-fi, acessar uma intranet do espetáculo onde pode votar e interagir de forma a definir os próximos passos do espetáculo. A conclusão da peça só acontece com a participação do público.  Os tipos de interação vão se modificar a cada história, onde a plateia pode decidir, por exemplo, o humor da personagem para lidar com certas situações ou até mesmo decisões éticas. Além da participação nos dias do espetáculo, o público interessado pode continuar interagindo no Facebook oficial da peça e pelo blog. Ou seja, é um teatro participativo e não apenas contemplativo, atribuindo novos significados à experiência de “assistir” uma peça.

A trilha sonora é original composta exclusivamente para a peça, com direção musical de Antonio Carbunk Van Ahn. A musicista Maria Tereza executa a música ao vivo e faz o papel de mestre de cerimônias conduzindo as votações.

Ficha técnica

Elenco: Brisa Rodrigues

Direção : Vida Oliveira

Dramaturgista: Vida Oliveira

Cenário e figurino: Brisa Rodrigues e Vida Oliveira

Programação visual: Marília Almeida e Guilherme Borges

Videografismo: Mônica Brito

Produção audiovisual: Nó produções

Direção musical: Antonio Carbunk Van Ahn

Iluminação: Eduardo Nobre

Participação especial: Maria tereza

Produção: Higor Cerqueira e Joana Martins


Ex.troll.gênio no Festival de Teatro de Curitiba

 

Local: SEEC Auditório Brasílio Itiberê (Rua Cruz Machado, Centro, Curitiba)

Data: 27  de março às 20h e 28 de março às 11h

Entrada: R$ 40,00 ( inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada)

Classificação: 14 anos

Duração: 45 min.

Contato:  extrollgenio@gmail.com  – (21) 98108-2856